Reflexões de fim de ano: temos de ser nós, cidadãos, a resgatar o futuro
Só podemos identificar o que podemos mudar e o que podemos melhorar na nossa vida, fazendo um balanço do ano que passou. A mudança e a melhoria vão depender dessa consciência.
A consciência humana é um universo complexo, tem a ver com o tempo e com as experiências. Mas também tem a ver com a atenção, a observação, a reflexão, a responsabilidade. Qualidades que hoje não são valorizadas :) Hoje o que conta é o que é visível, rápido, superficial e, se possível, tiver impacto.
Consciência, tempo e experiências: estou a utilizar consciência na sua dimensão mais ampla, não apenas o estado de alerta, o estado de vigília.
O tempo permite-nos distinguir experiências, a noção de causa e efeito, num determinado espaço.
As experiências que no início são sensações agradáveis ou desagradáveis, começam a ligar-se às interacções com os mais próximos. A partir de certa altura alargar-se-ão a outros menos próximos. A qualidade dessas interacções pode determinar a nossa perspectiva da vida e do mundo, e o nosso próprio percurso.
A certa altura do nosso percurso, e se tivermos sorte, começamos a identificar o que é real (o que tinhamos observado e qualificado) e o que é ficção (o que foi programado culturalmente). E nessa altura que percebemos que chegámos a casa, sabemos quem somos, a nossa essência, nesse espaço-tempo. A nossa consciência ganha consistência e claridade, fazemos as nossas escolhas de forma mais fácil, desenhamos o nosso futuro de forma natural.
Também sentimos que a nossa consciência se expande, o mundo, que sabemos complexo, começa a tornar-se compreensível, embora dolorosamente sofredor. O sofrimento que desejaríamos evitar já não nos deixa paralisados, dá-nos vontade de agir.
A possibilidade de prevenir situações de perigo e de sofrimento é uma das responsabilidades das lideranças políticas. Mas vemos como são elas próprias a causar instabilidade, violência e sofrimento. Estas lideranças não são apenas irresponsáveis, são o nosso pior inimigo. Digamos que podemos mesmo dizer que a maioria das lideranças políticas, a ocidente, a oriente, a norte e a sul, estão a governar contra as suas próprias populações. É triste, mas é assim. Vemos Trump criar mais instabilidade no médio oriente. Vemos Aung San Suu Kyi revelar o seu retrato Dorian Gray. Vemos o sofrimento na Síria, no Iémen, os refugiados a multiplicar-se num planeta a morrer lentamente. Sabemos que o que fizermos hoje pode determinar a possibilidade de um futuro para as próximas gerações, mas deixamos que estas lideranças políticas, económicas e financeiras destruam esse futuro à nossa frente.
Este ano isso ficou visível no nosso país. São dois planos paralelos que nunca se encontram: a ficção (o plano onde vive a maioria dos políticos) e a realidade (onde vive a maioria dos cidadãos). É por isso que eles não sabem lidar com a realidade, nem preveni-la, nem minimizar os danos, nem remediá-los depois. Numa linguagem mais crua, podemos mesmo dizer que privilegiam a ficção porque alimenta a sua vaidade (Eurogrupo ao serviço de Bruxelas, ratings de agências ao serviço da grande finança, sondagens com oportunidades tácticas). Claro que esta escolha (e sempre foi esta a escolha dos governos desde o socrático), faz-se sob falsos pretextos, o fim da austeridade, o equilíbrio social e a redução das desigualdades, criando equívocos com consequências terríveis.
Mas como eles nunca sentem as consequências na pele, não se espere que mudem a sua cultura política. A proposta de lei do financiamento dos partidos tira-nos qualquer réstea de ilusão. Foi assim que escolheram acabar o ano, a tratar da sua caixa registadora :)
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A mensagem do Papa Francisco aos jovens
A mensagem mais importante do Papa Francico aos jovens foi, a meu ver, a de não se deixarem influenciar, manipular, dominar pelos adultos que escolheram o poder e a ganância. Que a sua lógica do ódio, da violência, da apropriação e da destruição não predomine sobre a convivência pacífica e a colaboração entre as pessoas, as comunidades, os países.
Para que um jovem aprenda a observar o mundo de forma real e não distorcida, ou mesmo delirante, e adquira a empatia com o outro, precisa de se libertar da dependência dos videojogos e do isolamento do mundo real, precisa de se embrenhar no mundo, conviver, colaborar em grupos e na comunidade.
É reconfortante ver como tantos jovens respondem de forma carinhosa e entusiástica ao Papa Francisco, como a sua presença os ilumina e desafia, como as suas palavras ressoam nas suas consciências.
Os jovens enfrentam hoje desafios enormes. Cabe-lhes escolher entre a insanidade financeira e política actual e um outro caminho saudável e fraterno, entre a apropriação dos recursos naturais e uma gestão sustentável e de responsabilidade partilhada, entre a nova escravatura e a qualidade de vida universal.
O Papa Francisco anima-os, desafia-os, inspira-os. Diz-lhes o essencial, vai directo ao assunto, não enrola, não mistifica. Os jovens percebem claramente o mundo que está a ser desenhado pelos adultos que detêm o poder. E é aí que são alertados para detectar os sinais da destruição e a escolher a vida.
O Papa Francisco não tem ilusões nem as alimenta. A realidade é por vezes cruel, de uma crueldade que não tem nome sequer, a lógica da morte e da destruição, um quarto fechado e escuro onde se tortura, um duche onde se gaseia, e isto continua a repetir-se na história humana, o mal em si mesmo, no genocídio ou no assassinato de pessoas ao acaso.
Detectar, sinalizar e isolar o apelo ao ódio e à violência é fundamental. No entanto, já repararam que só são identificadas e sinalizadas vozes de jovens alienados e religiosos delirantes? Então e as vozes de alguns políticos, altos reponsáveis, de quem pode iniciar um conflito bélico? Encontramos o apelo ao ódio e à violência em pessoas respeitáveis e a todos os níveis do poder político e financeiro.
É essa capacidade de ver a realidade sem ilusões que os jovens são desafiados a adquirir.
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O palco foi desmontado
e o cenário era de cartão pintado
E as pessoas que dali saíram
apanharam um autocarro
que em vez de andar para a frente
andava para trás
mas ninguém parecia reparar nisso
E na primeira paragem
lá estavam mais pessoas
estranhamente quietas
estranhamente silenciosas
e ninguém parecia reparar
que o autocarro andava para trás
e não para a frente
Pensei estar a sonhar
mas era mesmo assim
e o autocarro continuava
a sua marcha ao contrário
e ninguém parecia reparar nisso
Quando me apeei
por estar ali a mais
vi um grande espaço
e estava tudo em obras
mas não havia ali pessoas
as pessoas não faziam parte
daquele cenário
Tive de me desviar de obstáculos
até encontrar um caminho
mas não havia ninguém
a quem pedir informações
É agora que vou acordar
disse a mim própria
mas estava estranhamente acordada
como nunca antes
em toda a minha vida
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Nunca nos conhecemos realmente
Construímos laboriosamente uma imagem de nós próprios
para depois descobrirmos que é mais uma ficção
Andamos a falar com um desconhecido
em monólogos intermináveis
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O homem prefere a ficção à realidade
Entre a ficção e a realidade, escolhe a ficção
A evolução humana, a história de uma construção de histórias
por cima da realidade
No meio desses construtores de histórias
aparece um ou outro demolidor de histórias
Retiram camadas e camadas de histórias
e fazem-no da forma mais inteligente possível
Amamos esses autores que construíram
a partir da realidade e não da ficção
